terça-feira, 29 de novembro de 2011

MICHEL THIOLLENT: leitura obrigatória para meus alunos – PARTE 4


Referência
THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

Planejamento do projeto de Pesquisa-ação

No caso das organizações, Thiollent (2009) afirma que a pesquisa-ação não deve ter como objetivo a geração de lucros, demissão de pessoal, entre outros aspectos deste gênero.

Em relação ao seu planejamento, o autor afirma que ela tem 4 (quatro) grandes fases:

- Exploratória: os atores da pesquisa começam a detectar os problemas a serem combatidos.
- Fase de pesquisa aprofundada: coletam-se dados com diversos instrumentos e a pesquisa é discutida pelos membros.
- Fase de ação: definem-se objetivos, apresentam-se propostas e resultados.
- Fase de avaliação: obter conhecimento produzido pela pesquisa e analisar os resultados alcançados.

Não necessariamente acontecem as 3 primeiras fases em sequência, pois é comum elas acontecerem simultaneamente. De antemão os participantes da pesquisa-ação devem se comprometer com a mesma. O autor destaca que “sempre se adota o princípio de total liberdade de expressão, mesmo na presença de representantes do poder formal.” (THIOLLENT, 2009, p.47).

A FASE EXPLORATÓRIA tem um aspecto interno, no qual os participantes fazem um diagnóstico da situação e um aspecto externo, quando se divulgam as propostas de trabalho. O pesquisador não deve, a priori, formular hipóteses antes de conhecer muito bem a situação a ser pesquisada.
Alguns elementos importantes fazem parte do “roteiro” desta fase exploratória, entre eles:
- É feito um levantamento bibliográfico, embora nesta fase não se chega ainda ao fechamento do quadro de referência.
- Inicia-se o diagnóstico paralelamente à elaboração deste quadro conceitual.
- Faz-se discussão em grupos com as pessoas da organização.

Detectam-se 5 ou 6 problemas principais, para serem eleitos 2 ou 3 que serão investigados.

O autor sugere que se façam entrevistas semiestruturadas, inclusive com perguntas bem abertas, tais como: “Na sua área, existem problemas de relacionamento hierárquico?” (THIOLLENT, 2009, p.51).

Sugere-se que, em casos de situações de conflitos, entrevistas pessoas de diferentes posicionamentos e, preferencialmente, com gravações das mesmas, desde que autorizadas. As respostas devem ser classificadas por assunto. Faz-se um relatório para dar retorno aos respondentes e são definidas. Nesta fase solidifica-se um grupo de trabalho em torno das questões principais para as quais será realizada a pesquisa aprofundada.

Na FASE PRINCIPAL, com o grupo permanente formado e, podendo haver grupos de apoio a este, sendo que cada grupo pode ter entre no máximo 12 ou 15 pessoas, estudam-se as referências bibliográficas necessárias para a pesquisa, montam os questionários e entrevistas, aplicam.

Sugere-se que o questionário seja aplicado à totalidade da população da organização. Com base nos resultados, definem-se prioridades dos problemas a serem resolvidos.  “É o grupo que decide os rumos a serem dados à ação.” (THIOLLENT, 2009, p.66). O papel do pesquisador é facilitar o processo, animar a discussão e permitir que a participação seja igualitária nas discussões.

Na FASE DE AÇÃO, são difundidos os resultados, são definidos objetivos que podem ser alcançados com ações concretas e também podem ser apresentadas propostas. Sendo assim, Thiollent (2009, p.66) afirma que “além de informativo, seu objetivo [da divulgação] é conscientizador”.

As ações devem ser então colocadas em prática. Durante este processo, várias reuniões de acompanhamento são necessárias.

Na FASE DE AVALIAÇÃO as ações que foram implementadas devem ser alvo de profunda avaliação, objetivando examinar a efetividade das mesmas e extrair conhecimentos para o futuro.

MICHEL THIOLLENT: leitura obrigatória para meus alunos – PARTE 3


Referência
THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

Questões gerais de metodologia de pesquisa aplicada e de diagnóstico

“A pesquisa-ação é uma proposta que pertence aos métodos de pesquisa social aplicada e, em certos casos, que se aproxima da metodologia de diagnóstico no contexto socioorganizacional.” (THIOLLENT, 2009, p.35).

Thiollent (2009) diferencia pesquisa básica, aquela voltada para o meio acadêmico, da pesquisa aplicada, aquela voltada para solução de problemas.

Embora a pesquisa básica não dispense a pesquisa empírica, segundo o autor, ela não está voltada para a solução de problemas, o que é uma premissa da pesquisa aplicada. Entretanto, “o termo pesquisa-ação não é sinônimo de pesquisa aplicada. Os outros tipos de pesquisa aplicada são métodos de diagnóstico e de levantamento de dados realizados de modo participativo ou não.“ (THIOLLENT, 2009, p.37).

Ressalta o autor que a pesquisa-ação, em seu momento inicial, apresenta características de pesquisa diagnóstico.  Esta, por sua vez, objetiva identificar problemas com base em “sintomas” (termo usado pelo autor). Destaca ainda que o diagnóstico nunca é exaustivo e não necessariamente chega a uma total comprovação.

Além disto, “a parte intuitiva do diagnóstico é considerada como inevitável, mas isso não significa que deva ser deixada ao gosto de cada um, sem exigência de objetividade. “ (THIOLLENT, 2009, p.39).

O consenso, no caso da pesquisa diagnóstico, é dado como resultado de discussões entre especialistas. Para Thiollent (2009), este consenso requer linguagem compartilhada tanto do ponto de vista teórico quanto prático, por parte destes especialistas.

Outro ponto importante acerca do diagnóstico é que “por razões de tempo e de urgência de soluções, usam-se raciocínios simplificados e técnicas não exaustivas. Em outros termos, trata-se de um campo de metodologia particularmente voltada para a heurística.” (THIOLLENT, 2009, p.41).

MICHEL THIOLLENT: leitura obrigatória para meus alunos – PARTE 2


Referência
THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

O Desenvolvimento da Pesquisa-ação

Thiollent (2009) destaca que às vezes a pesquisa-ação é pensada como forma um diagnóstico participativo. Ele lembra que ela nem sempre é reconhecida no meio acadêmico, mas, em comparação com a pesquisa tradicional, “a pesquisa-ação ganha força quando as instituições de pesquisa e seus modelos convencionais geram insatisfação” (THIOLLENT, 2009, p.21).

Como argumento em favor da pesquisa-ação, acrescenta-se o fato de que o padrão passivo de observação não é o único possível. Uma característica básica é que pressupõe a concepção de uma ação.

Desroche (1990) citado por Thiollent (2009, p.24) define a pesquisa-ação como “pesquisa na qual os autores de pesquisa e os atores sociais se encontram reciprocamente implicados: os atores na pesquisa e os autores na ação”.

Assim, os atores não são apenas objetos de investigação, pois eles participam da pesquisa. Para Thiollent (2009) ela não é simples observação participante, pois requer 3 aspectos: pesquisa SOBRE os sujeitos da pesquisa, PARA adoção de práticas (aplicação) e POR ou PELA ação. Portanto, a pesquisa-ação é também uma pesquisa aplicada. “No que diz respeito à implicação, duas características principais são distinguidas: a efetividade ou reciprocidade do relacionamento entre pesquisadores e atores e a clareza dos posicionamentos de cada parte no plano ético.” (THIOLLENT, 2009, p.25).

A pesquisa-ação requer planejamento participativo. O autor apresenta a pesquisa-ação também como uma proposta de pesquisa que pode ser aplicada para programas de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). Embora a maioria das pesquisas em QVT recorre a técnicas quantitativas, pode-se usar também técnicas qualitativas e, aí, há espaço para a pesquisa-ação.

Thiollent (2009, p.31) apresenta como questões fundamentais da pesquisa-ação nas organizações: adequar referencial teórico aos contextos organizacionais; criar condições para a interdisciplinaridade; estabelecer relações com partes interessadas, tais como usuários das organizações; equilibrar a dimensão crítica da pesquisa com o caráter instrumental.

A pesquisa-ação abre novos caminhos para a pesquisa social. O autor conclui o capítulo afirmando que conceber este tipo de pesquisa em organização envolve um investimento a médio e longo prazo.

MICHEL THIOLLENT: leitura obrigatória para meus alunos – PARTE 1

Referência
THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

Michel Thiollent é autor de várias obras que tratam de métodos de pesquisa, em especial, a pesquisa-ação, tais como “Metodologia da Pesquisa-ação” e “Pesquisa-ação” nas organizações. É doutor em sociologia. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da UNICAMP e atualmente é professor da UNIGRANRIO. Conhecido em todo o país, dispensa maiores apresentações.

Como em uma das instituições na qual eu trabalho os alunos produzem trabalhos de conclusão de curso muitas vezes voltados para diagnóstico em organizações, acredito que a leitura do livro “Metodologia da Pesquisa-ação nas organizações” do Thiollent é imprescindível para eles.

Tentarei fazer um breve resumo – ou talvez não tão breve assim – desta obra, pois creio que vai interessar a muita gente.

Como se trata de uma obra de pesquisa em organizações, o autor inicia seu trabalho com um conceito de organização como sendo “qualquer entidade que agregue grupos sociais cujas atividades são estruturadas em processos com objetivos definidos” (THIOLLENT, 2009, p.1).

Entre estas organizações, o autor coloca as empresas que prestam serviços, administrações públicas, centros de pesquisa, organizações não governamentais, entre outras.

Ele destaca que as organizações possuem aspectos formais e informais, que podem ser analisados e, entre os possíveis recortes, estão o aspecto social ou humano e o aspecto tecnológico. (THIOLLENT, 2009, p.2).

Interessante também a distinção que o autor faz entre organização e instituição, para efeitos de análise. Enquanto que a “análise sociológica da organização destaca os aspectos estruturais e funcionais das atividades ou dos grupos”, por outro lado, a “análise da instituição está centrada no contexto histórico, nas relações de poder, formas jurídicas, autoridade, crises de legitimidade”. (THIOLLENT, 2009, p.2).

Thiollent (2009, p.2) define pesquisa-ação como aquela que:

[...] consiste em acoplar pesquisa e ação em um processo no qual os atores implicados participam, junto com os pesquisadores, para chegarem interativamente a elucidar a realidade em que estão inseridos, identificando problemas coletivos, buscando e experimentando soluções em situação real.

O autor frisa que a pesquisa-ação não possui um padrão de como deve ser realizada. No caso de organizações, normalmente o ponto de partida é uma demanda desta, embora “a pesquisa-ação nem sempre é uma resposta a uma demanda explícita” (THIOLLENT, 2009, p.3). Esta demanda às vezes pode ser estimulada a partir de uma equipe de pesquisadores e/ou educadores.

1 A Pesquisa-ação e seus compromissos

            Thiollent (2009) afirma que uma pesquisa-ação requer cultura política “aberta”, pois para este tipo de pesquisa não pode haver dogmatismos e os resultados não podem ser usados para fins particulares, pois este não é o propósito. Os objetivos da pesquisa devem ser objeto de negociação entre os autores que participam da mesma.
            Em relação à pesquisa participante, o autor afirma que toda pesquisa-ação tem este caráter e, portanto, toda pesquisa-ação acaba sendo um tipo de pesquisa participante.
            Quanto à participação, “a pesquisa-ação requer legitimidade dos diferentes atores e convergência de interesses, inclusive nas organizações, ao passo que a pesquisa participante lida com situações de contestação de legitimidade do poder vigente. “ (THIOLLENT, 2009, p.10).
            Para o autor a pesquisa-ação é possível quando existem elementos como: iniciativa de pesquisa por parte do grupo; quando há autonomia dos atores na definição dos objetivos; todos os grupos envolvidos são chamados à participação; quando há liberdade de expressão; os grupos são informados dos resultados; as ações são negociadas.
            Desta forma, “a realização de uma pesquisa-ação é facilitada nas organizações de cultura democrática” (THIOLLENT, 2009, p.12).
            A pesquisa-ação tem um caráter interrogativo-crítica: interrogativo porque o questionamento tem papel de destaque e crítica porque não aceita explicações espontâneas. Por outro lado, ela não aceita soluções prontas.
            Ela tem uma perspectiva crítica e instrumental, visto que desencadeia argumentações e instrumental no sentido de resolver problemas da “razão prática”. O autor lembra, portanto, que “não se pretende resolver conflitos sociais fundamentais que não têm soluções no espaço ou no tempo de uma pesquisa localizada” (THIOLLENT, 2009, p.15). O importante é que se possam encontrar soluções passíveis de serem executadas.
            Thiollent (2009) faz uma crítica às pesquisas que não passam de coleção de dados sem valor algum. Neste sentido, diz o autor que a cientificidade e objetividade pretendida na pesquisa-ação não têm o mesmo caráter que nas pesquisas de cunho positivista. Na pesquisa-ação é importante que “os pesquisadores e os demais participantes cheguem a aceitar como resultados as informações que se revelam mais adequadas tanto do ponto de vista teórico como do prático.“ (THIOLLENT, 2009, p.18). Os problemas devem ser resolvidos sem parcialidade.