quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

1a. Mostra de Mídias Digitais - pronunciamento de abertura

Reproduzo a seguir o pronunciamento que fiz na abertura da 1a. Mostra de Mídias Digitais: anos finais do ensino fundamental, em Rio do Sul, no dia 03/12/2015, como parte do projeto Mídias Digitas, parceria do Senac com a Secretaria Municipal de Educação, com as escolas: Centro Educacional Roberto Machado e Centro Educacional Pedro dos Santos.

Que ideias guiam nossos sentimentos? Responder a esta questão é tarefa da estética. [...]
Que ideias orientam nossa conduta? Responder a esta questão é tarefa da ética.  [...] A lógica, por fim, estuda os ideais e normas que conduzem o pensamento. “ (SANTAELLA, 2010, p. 2, grifo nosso). A estética é base para a ética que, por sua vez, é base para a lógica.

 
A escolarização, parte de nossa educação, na maioria das vezes se prende somente aos aspectos da lógica e determina normas, procedimentos, define planos que devem ser seguidos, sem a preocupação de vinculação com a ética e estética. Em alguns casos, a ética figura nos planejamentos, como, por exemplo, do ensino por competências que planeja o processo de escolarização baseado no Conhecimento, Habilidades e Atitudes (CHA), sendo o primeiro e último aspectos relacionados à ética e o do meio pertencente à lógica.



E a estética, que é a base de tudo? Na maioria das vezes, fica de fora.
Como o sujeito pode ter conhecimentos e habilidades (pensamento - questão lógica), e atitudes (comportamento - questão ética), sem um sentimento (questão estética) que vincule seu comportamento às suas ações?



 Para responder este questionamento, creio eu, é necessário articular formas de afetar o sujeito: “o afeto ou sentimento não é propriamente um estado, mas a passagem, o movimento, a transição, a variação de um estado a outro. O afeto é a variação contínua da potência de agir de alguém, determinada pelas ideias que ele tem” (MACHADO, 2010, p. 77).
Para Deleuze e Parnet (2004) afetos são devires, ou seja, vir a ser, tornar-se. Nossa potência de agir aumenta à medida que somos afetados por corpos que nos tornam superiores, pois nos traz alegria; ao contrário, nos tornamos mais fracos e nossa potência de agir diminui quando as relações com outros corpos nos decompõem (tristeza).
Creio eu ser possível utilizar um objeto, concreto ou abstrato, para afetar as pessoas. Poderíamos utilizar, por exemplo, a arte: como a dança, o teatro, a música, as artes plásticas. Escolho as mídias digitais que incluem não apenas os equipamentos (computadores, tablets, celulares), mas tudo aquilo que somos capazes de fazer com eles.
Nenhum planejamento de uso das mídias, como de qualquer outro objeto, daria certo se as pessoas não fossem afetas pelo objeto e pelas outras pessoas. E acredito que a mediação é a chave para a criação dos afetos. A mediação coincide com a ideia de movimento, de transição e variação de um estado a outro, como afirmamos agora há pouco. Não é algo de cima para baixo, mas um movimento horizontal, de parceria, de pegar na mão e fazer juntos.
A proposta que apresentamos aos professores dos Centros Educacionais Pedro dos Santos e Roberto Machado foi diferenciada porque levou a mediação e o afeto em conta. Mais que uma ideia de formação docente para as mídias digitais, nos propusemos a planejar e executar junto com os professores as aulas. Para isto, a hora atividade foi fundamental.
 Dois pensamentos guiaram nossas práticas para que este projeto fosse possível: um, de cunho filosófico, baseado na ideia de rizoma de Deleuze, que nos permitiu ver a educação com uso de mídias digitais não em forma hierárquica nem linear, mas rizomática. Outra, de cunho pedagógico, baseado na teoria da Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM) de Reuven Feuerstein. Fomos para as escolas acreditando que ninguém seria obrigado a participar do projeto. Poderia entrar quem e quando quisesse. Para sair a mesma coisa, poderiam sair quem e quando pretendesse. Uma vez participante do projeto, o professor sabia também que não haveria receitas prontas de quais mídias utilizar nem quando, mas sim um conjunto de possibilidades de uso.
E assim aconteceram 46 reuniões realizadas em 9 meses (março a novembro de 2015). Algumas com duração pequena, de 15 a 30 minutos, para dar algum encaminhamento de replanejamento, outras que ocuparam um turno inteiro de 4 horas.
Foram dezenas de aulas, das quais 18 mediadas e registradas pessoalmente. O registro de campo deste trabalho resultou em 223 páginas.
Cada reunião foi registrada em uma minuta de reunião que, além de deixar registrado as discussões, destacava as ações que cada um faria depois da reunião.
 Era preciso, sobretudo, que as pessoas fossem afetadas por este movimento de mediação, de fazer juntos. Além do trabalho realizado pelos professores com seus alunos, houve algumas publicações de trabalhos em eventos. Em 2015 entre resumos expandidos e artigos completos, foram 5 publicações.



Desde 2013, quando entramos em Rio do Sul para trabalhar com estes professores, eles foram afetados por esta parceria com o Senac, o que resultou em publicações em congressos em 2013 e 2014.
Voltando às questões da lógica, ética e estética, que apresentamos no início, podemos dizer que primeiro o sujeito precisa ser afetado (estética), para que o seu comportamento (ética) seja tal que ele se comprometa com aquilo que se propõe a fazer (lógica).
Em relação à 1ª. Mostra de Mídias Digitais: anos finais do ensino fundamental, vocês, nossos convidados, encontrarão 4 ambientes:
·        Ambiente aula – um auditório, espaço para 10 miniaulas dadas pelos alunos, todas elas com mídias digitais que foram utilizadas por eles em sala de aula; e 4 momentos de relatos de experiências dos professores.
·        Ambiente jogos – um espaço onde o público poderá jogar, todos também foram objetos de uso das professoras do CE Roberto Machado e CE Pedro dos Santos.
·        Ambiente exposição – com apresentação de trabalhos dos alunos.
·        Ambiente vídeos – nos corredores do Senac, com vídeos produzidos pelos alunos e outros que mostram curtos episódios de parte do que aconteceu ao longo deste ano de 2015. Visitem todos, pois produzimos vídeos curtos, entre 2:18 e 7:07 para que pudessem servir de uma pequena mostra realmente de parte do que aconteceu.

Meus agradecimentos à Silvana Pamplona do Senac, pela parceria incansável no projeto. Às diretoras Marineusa e Cristiani que abriram as portas das escolas para este projeto; a todos os professores e alunos.
Para fechar, ouso falar em nome próprio para dizer que gostaria que neste país tivéssemos a seguinte lei:
Art 1. Toda criança tem direito de utilizar as tecnologias disponíveis em qualquer escola de seu domicílio (município), sejam elas computadores ou laboratórios de ensino, independentemente de sua condição de pagamento para o uso.
Parágrafo único: Os estabelecimentos privados de ensino se reservam ao direito de manter as aulas exclusivamente para seus alunos devidamente matriculados, mas se comprometem a disponibilizar horários para que o caput deste artigo seja cumprido.

Gostaria de chamar aqui a aluna Heloisa para dar um depoimento sobre o que vivenciou ao longo do período letivo de 2015 com as mídias digitais.
Muito obrigado!

REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Rio de Janeiro: Relógio D’agua editores, 2004.
MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Cengage Learning, 2010.