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sábado, 24 de março de 2018

PESQUISA CIENTÍFICA

A pedidos, resolvi reproduzir na íntegra o capítulo 7 do meu livro Elaboração de trabalhos acadêmicos: normas, dicas e erros comuns.




Eu tenho argumentado em minhas aulas da disciplina de Técnicas de Pesquisa, nos cursos de pós-graduação lato sensu, que a formulação de um problema de pesquisa não é algo tão neutro como muitos podem crer. Pensamos em um problema a partir de nossa visão de mundo. É também, em alguma medida, a concepção teórica na qual o pesquisador está mergulhado.
Diversos termos são usados para essas visões de mundo, como enfoque da pesquisa (TRIVIÑOS, 1987), paradigma de pesquisa (SANDÍN ESTEBAN, 2010), quadros de referência (BRUYNE; HERMAN; SCHOUTHEETE, 1991), entre outros.
Diversos são os paradigmas de pesquisa. Somente para indicar alguns bons autores: Meksenas (2002) aborda o positivismo, marxismo, a fenomenologia e o estruturalismo. Triviños (1987) mostra o positivismo, a fenomenologia e o marxismo; Bruyne, Herman e Schoutheete (1991) tratam da fenomenologia, positivismo, funcionalismo e estruturalismo.
Não é intenção deste livro abordar esses paradigmas. Entretanto, por motivo didático, vale a pena mostrar, com o exemplo apresentado por Triviños (1987), que a afirmação que fiz no início deste capítulo se confirma, ou seja, a formulação de um problema de pesquisa é resultante de um paradigma, ou de uma visão de mundo (Quadro 3).

 Quadro 3 – Formulação do problema de pesquisa
Tema:
O fracasso escolar
Delimitação do problema:
O fracasso escolar nas escolas estaduais de 1º. grau da cidade de Porto Alegre – RS.

Formulação do problema
Enfoque Positivista
Existem relações entre o fracasso escolar das escolas estaduais de 1º. grau da cidade de Porto Alegre – RS – e o nível socioeconômico da família, escolaridade dos pais, lugar onde está situada a escola, centro ou periferia, sexo dos educandos, anos de magistério dos professores e grau de formação profissional dos mesmos?
Enfoque Fenomenológico
Quais são as causas, segundo a percepção dos alunos repetentes, dos pais e dos professores, do fracasso escolar e o significado que este tem para a vida dos estudantes que fracassam, segundo estes mesmos, os pais e os educadores das escolas de 1º. grau da cidade de Porto Alegre – RS?
Enfoque Dialético [Marxista]
Quais são os aspectos do desenvolvimento do fracasso escolar a nível local, regional e nacional e suas relações com o processo da educação e da comunidade nacional e como se apresentam as contradições, primordialmente, em relação ao currículo, formação e desempenho profissional dos professores e a situação de lugar da escola, centro ou periferia, dos alunos que fracassam, e especificamente nas escolas estaduais de 1º. grau de Porto Alegre – RS?
Fonte: Adaptado de Triviños (1987, p. 96-97).

Observe que o tema e a delimitação do problema é o mesmo para os três enfoques, ou paradigmas. O que muda é a formulação do problema, conforme a visão de mundo do pesquisador.
Embora as visões de mundo de cada pesquisador direcionem suas escolhas, acredito que o conhecimento desses paradigmas é mais importante para professores que orientam trabalhos acadêmicos que para os alunos de graduação ou pós-graduação lato sensu. Talvez não seja necessário que os alunos desses cursos apontem em seus relatos de pesquisa o paradigma que deu origem à formulação do problema. Entretanto, penso que um professor que orienta trabalhos teria condições melhores de propor pesquisas aos alunos com os conhecimentos das características desses paradigmas.
Minha preocupação quando penso em uma pesquisa está em delimitar dentro de três planos: epistemológico, teórico e técnico.





Para Martins e Theóphilo (2009, p. 5) um “objeto de uma pesquisa pode surgir de circunstâncias pessoais ou profissionais, da experiência própria ou alheia”, dentre outras.
Minha experiência pessoal em docência na pós-graduação lato sensu, nos cursos que tenho trabalhado há sempre um roteiro com uma proposta de pesquisa. Nesses casos, em uma pós-graduação em Gestão de Pessoas, por exemplo, os alunos vão a uma empresa escolhida e fazem um diagnóstico de como são os processos de Gestão de Pessoas na organização pesquisada e apresentam, como resultado da pesquisa, uma análise do diagnóstico com uma proposta de gestão para a instituição.
Delimitar um problema de pesquisa como esse que acabei de exemplificar, assim como qualquer outro, requer que o pesquisador tenha consciência de suas limitações e dos limites do próprio objeto de pesquisa. Isso significa que o tema não deve ser tão abrangente que o pesquisador não consiga dar conta do objeto e nem tão delimitado que as respostas para o problema sejam óbvias e previsíveis antes mesmo da pesquisa.
Bruyne, Herman e Schoutheete (1991) consideram que, para assegurar a cientificidade da pesquisa, ela deve ser pensada como uma prática organizada em um espaço quadripolar: polos epistemológico, teórico, técnico e morfológico. De maneira resumida posso afirmar que os componentes de cada um dos quatro espaços, conforme proposto por Bruyne, Sherman e Schouteete (1991) são: no polo epistemológico estão a objetivação da pesquisa, a problemática e propósito; no polo teórico as hipóteses e construção dos conceitos; no polo técnico estão o método e a coleta de dados; no polo morfológico as regras de estruturação do trabalho científico.
Martins e Theóphilo (2009) utilizam esses autores como base e propõem seis polos: epistemológico, teórico, metodológico, técnica, formatação/edição e avaliação.  Não tratarei das especificadas desses seis polos, porque quero propor a formulação e execução de uma pesquisa sustentada por três planos: epistemológico, teórico e técnico.
Com base nesse pensamento e tomando como referência um recorte dos polos apresentados por Bruyne, Herman e Schouteete (1991), a Figura 23 revela a minha proposta.

Figura 23 – Os três planos da pesquisa
Fonte: Elaborado pelo autor (2016)


Não confundir planos com capítulos
Os planos epistemológico, teórico e técnico não equivalem aos capítulos de um trabalho acadêmico.

Para Creswell (2010, p. 134) “na pesquisa em ciências sociais aplicadas, os problemas se originam de questões, dificuldades e práticas atuais”.


No plano epistemológico, dentre as possibilidades de conhecimento gerado pela pesquisa, Martins e Theóphilo (2009) apresentam os problemas de engenharia que, segundo os autores, podem ser teóricos, de ação e técnicos. Os problemas teóricos apresentam hipóteses e soluções, sem a necessidade de uma pergunta sobre adequação a algo. Já os problemas de ação se referem a perguntas sobre como fazer alguma coisa que pode ser, por exemplo, uma solução técnica ou uma política a ser implementada. Por último, segundo os autores, os problemas técnicos tratam da construção de um objeto dentro de determinadas especificações.
Minha experiência em pós-graduação lato sensu tem mostrado que há uma grande preocupação, na formação de especialistas, que eles sejam capazes justamente de resolver esses problemas de engenharia. Por exemplo: em uma pós-graduação lato sensu em Gestão Estratégica de Pessoas, a pesquisa pode visar a criação de um Plano de Recursos Humanos para uma organização; em uma pós-graduação em Segurança da Informação, a preocupação está em criar uma Política de Segurança da Informação para a organização pesquisada. Nesses dois exemplos considero que se enquadram, perfeitamente, naqueles tipos de problemas de engenharia que Martins e Theóphilo (2009) chamam de problema de ação.
Leciono disciplina em um curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas no qual a pesquisa realizada no final do curso tem a preocupação de gerar uma especificação e construção de um sistema informatizado segundo um padrão. Nesse caso, considero que a pesquisa se enquadra nos problemas de engenharia que Martins e Theóphilo (2009) apontam como ações de ordem técnica.
Essa natureza da pesquisa deve ser evidenciada logo no início de um texto acadêmico que pretende mostrar o que foi pesquisado. Considero, assim, que o plano epistemológico da pesquisa fica evidenciado já na introdução.


Extensão da introdução
Uma introdução deve ter cerca de duas páginas (DEMO, 2009; CRESWELL, 2010).

Creswell (2010, 2014) sugere que uma introdução apresente: a) o problema de pesquisa; b) os estudos que já abordaram o problema; c) suas deficiências; d) a importância do estudo em questão e o objetivo. Para o autor, o termo problema talvez não seja o melhor, porque “talvez ficasse mais claro se chamássemos de ‘necessidade de estudo’, ou ‘criação de uma justificativa para a necessidade de estudo. A intenção [...] é apresentar uma justificativa” (CRESWELL, 2014, p. 111).
Considerando essa abordagem, darei exemplo de introdução para uma pesquisa sobre a gestão estratégica de pessoas em um hotel, com o nome fictício de Marieta, um problema de ação, dentro dos problemas de engenharia apontados por Martins e Theóphilo (2009).
O exemplo tem o cunho meramente didático, com o objetivo de mostrar de que forma os elementos podem ser apresentados, ainda que eu corra o risco de algum erro conceitual em relação ao conteúdo da área de Gestão Estratégica de Pessoas.
No exemplo a seguir elaborei a primeira parte da introdução, que identifica o problema de pesquisa.


Introdução da pesquisa no hotel Marieta
a)      Definição do problema de pesquisa

Obs.: O número entre parênteses, no início do parágrafo, tem o objetivo didático de identificar a quantidade de parágrafos e para que ele possa ser citado na explicação do exemplo.
1 INTRODUÇÃO

(1) A Gestão Estratégica de Pessoas na rede hoteleira geralmente não é uma das maiores preocupações dos empresários do setor, porque a preocupação maior recai sobre o atendimento ao cliente (hóspede) e à movimentação financeira que o empreendimento proporciona, mais especificamente, o lucro.
(2) A falta de atenção à Gestão Estratégica de Pessoas por empresários do ramo pode ser responsável pelo alto índice de turnover. A pesquisa de Bühler (2009) em uma rede hoteleira de Curitiba, no Paraná, evidenciou 86% como índice de turnover na empresa estudada. Lean (2015) argumenta que os 31% de taxa de turnover neste segmento, nos Estados Unidos, custa caro para os negócios.   
(3) Não apenas o turnover, mas o absenteísmo, o clima organizacional, a comunicação, a administração de conflitos, a avaliação de equipes, a liderança, entre outros aspectos, são componentes da Gestão Estratégica de Pessoas que, se não receberam atenção adequada, podem afetar para pior o desempenho da organização como um todo, incluindo aí a satisfação dos hóspedes e o lucro, preocupações mais evidentes dos gestores deste ramo.
Nas referências do trabalho deve constar:
BÜHLER, Leslie Vieira. Turnover na hotelaria: estudo de caso da rotatividade de funcionários de uma rede hoteleira de Curitiba (PR). 2009. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Turismo, Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, 2009.

LEAN, Guy. Briefing: High staff turnover is costly for hospitality businesses. 2015. Disponível em: . Acesso em: 18 jun. 2016.


Introdução da pesquisa no hotel Marieta
a)      Definição do problema de pesquisa
Note, nos parágrafos do exemplo anterior, os elementos do problema de pesquisa. Utilizei aqueles que considero como principais sugestões de Creswell (2010) para delimitar um problema:

Parágrafo (1):
Escrevi uma sentença de abertura que estimula o interesse do meu leitor sobre tema.

Parágrafo (2):
Trouxe números que podem causar impacto para mostrar a relevância da preocupação com o tema.

Parágrafo (3):
Identifiquei o problema de pesquisa.

Creswell (2010) sugere ainda que na apresentação do problema é importante citar referências que justifiquem o estudo e afirma que é importante estruturar o problema com uma perspectiva metodológica, mas considero que esses elementos vão aparecer em outras partes que não essa da delimitação do problema.
Na segunda parte da introdução, sobre os estudos que abordam o problema, é importante salientar que não se trata de uma revisão de literatura sobre o tema.


Introdução da pesquisa no hotel Marieta
b) Estudos que abordam o problema

Obs.: O número entre parênteses, no início do parágrafo, tem o objetivo didático de identificar a quantidade de parágrafos e para que ele possa ser citado na explicação do exemplo.
(4) De maneira ampla, estudos sobre a Gestão Estratégica de Pessoas apontam que ela pode ser vista como vantagem competitiva das empresas (LACOMBE, 2005). O foco no planejamento de carreiras com um projeto profissional, possibilita às organizações uma visão ampliada de oportunidades (DUTRA, 2013).
(5) Em um estudo com 151 gestores de hotéis na região nordeste do Brasil, Barreto (2011) identificou que o grau de implementação da Gestão Estratégica de Pessoas atingiu um bom nível, com valor de 7,57 em uma escala até 10. Para medir esse grau a autora utilizou uma tabela com 20 indicadores.
(6) Em outro estudo, com hotéis da região de Taubaté, São Paulo, foram pesquisados cinco empresas, das quais somente duas tinham pelo menos um descritivo completo dos cargos (SANTAELLA; SANTOS; RODRIGUES, 2014).
Nas referências do trabalho deve constar:
BARRETO, Leillianne Michelle Trindade da Silva. Estratégias de gestão de pessoas e desempenho organizacional na hotelaria: o papel das capacidades organizacionais. 2011. Tese (Doutorado) – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

DUTRA, Joel Souza. Administração de carreiras: uma proposta para repensar a gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 2013.

LACOMBE, F. J. M. Recursos humanos: princípios e tendências. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.

SANTAELLA, Liliane Azevedo; SANTOS, Ana Elisa; RODRIGUES, Jorge Luiz Knup. A gestão de recursos humanos em empreendimentos do setor hoteleiro na cidade de Taubaté-SP. In: Congresso Nacional de Excelência em Gestão, 10., 2014, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Instituto Siades, 2014. p. 1-15.

Com o risco de não conhecer em profundidade o assunto, estruturei o exemplo anterior com base naquilo que considero importante ser apresentado sobre os estudos que abordam o problema, nesse momento da introdução, conforme dica a seguir.


Introdução da pesquisa no hotel Marieta
b) Estudos que abordam o problema

Sugiro que, para iniciar, sejam os estudos mais gerais (parágrafo 4) para os mais específicos (parágrafos 5 e 6).

Como pode ser observado, o parágrafo 4 trata do tema de forma genérica e nos posteriores tratei do tema em relação ao segmento que está sendo estudado na pesquisa: o hoteleiro.
Continuando a proposta de Creswell (2010) para a introdução, vem as deficiências na literatura existente que, embora pelo título possa parecer que não se trata de falhas, mas “a literatura pode precisar ser replicada ou repetida [...] ou a voz dos grupos sub-representados não foi ouvida na literatura publicada” (CRESWELL, 2010, p. 137).

Introdução da pesquisa no hotel Marieta
c) Deficiências na literatura existente


(7) Boas pesquisas na área tratam parte da Gestão Estratégica de Pessoas. Borges (2010) entrevistou empregados e prestadores de serviços em dois hotéis na cidade do Rio de Janeiro para identificar como as relações humanas do trabalho no setor hoteleiro podem contribuir para a diminuição de riscos. Vidal e Simonetti (2010) entrevistaram 75 empregados para identificar comprometimento organizacional. Piellusch e Taschner (2009) investigaram quais indicadores de RH de quatro grandes redes de hotéis estão alinhados aos objetivos estratégicos das organizações.
(8) Independente de como são os resultados dessas pesquisas, cada uma analisa uma parte da Gestão Estratégica de Pessoas. Abre-se uma possibilidade de estudo que é a investigação de como criar uma política de Gestão Estratégica de Pessoas para uma dada realidade, ou seja, uma empresa específica, com base no estudo desta.
Nas referências do trabalho deve constar:
BORGES, Mônica Ferretti Macieira. Cultura organizacional e a prevenção de riscos e perdas em hotelaria. 2010. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, 2010.

PIELLUSCH, Marcos; TASCHNER, Gisela Black. Indicadores de RH no setor hoteleiro: um estudo nas maiores redes no Brasil. O&S, Salvador, v. 16, n. 51, p. 665-686, out./dez. 2009.

VIDAL, Mariana Pires; SIMONETTI, Vera Maria Medina. Comprometimento organizacional: um estudo de caso no setor de governança hoteleira. Revista Hospitalidade, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 111-137, jul./dez. 2010.



Introdução da pesquisa no hotel Marieta
c) Deficiências na literatura existente


Escrever um ou dois parágrafos apontando outras pesquisas que, de alguma forma, abrem uma lacuna para que a sua pesquisa seja realizada. Foi o que fiz no parágrafo 7.
Em seguida, apontada a lacuna, deixar a entender que ela será o que sua pesquisa vem preencher. Escrevi no parágrafo 8.

Para fechar a introdução, a importância do estudo deve ser evidenciada juntamente com o objetivo da pesquisa. Para o objetivo, Creswell (2010) identifica três elementos centrais necessários: o fenômeno a ser explorado, os participantes e o local.

Introdução da pesquisa no hotel Marieta
d) Importância do estudo e declaração de objetivo


(9) O diagnóstico da Gestão Estratégica de Pessoas em um hotel específico e a proposição de uma política para tal, considerando a empresa estudada, é importante por algumas razões. A primeira delas é o fato de possibilitar, à luz de um referencial teórico do tema, identificar como as questões são vistas no hotel estudado e o porquê ou de que maneira poderiam ser diferentes. Outra razão é possibilitar colocar à prova os referenciais teóricos.
(10) Um estudo como este permite mostrar possibilidades de uso da teoria para criação de uma política da Gestão Estratégica de Pessoas que, embora fixada para a empresa analisada, abre possibilidades de aplicação em outras do mesmo tipo. Também serve de apoio aos profissionais ou estudantes que conheçam os elementos teóricos aqui apresentados, mas que não tenham tido ainda a oportunidade de colocá-los em prática.
(11) O objetivo deste estudo é diagnosticar como são tratadas as questões ligadas à Gestão de Pessoas no Hotel Marieta, localizado na cidade de Contagem, Minas Gerais, para propor à empresa uma Política de Gestão Estratégica de Recursos Humanos. Para tal, foram estabelecidos como objetivos específicos:
·         Diagnosticar o contexto do Hotel Marieta (ambiente externo).
·         Diagnosticar as práticas de Gestão de Pessoas existentes na empresa.
·         Formular estratégias de desenvolvimento e retenção do capital intelectual para o Hotel Marieta.
·         Formular planos de recrutamento e seleção; treinamento e desenvolvimento; avaliação de desempenho; remuneração; benefícios; sistema de informação e arquitetura organizacional.
·         Formular análise de viabilidade econômico-financeira para a política criada.

De forma resumida, as dicas a seguir permitem a formulação da introdução.


Quadro resumo da formulação da introdução

Elemento da introdução proposta por Creswell (2010)
Dicas
O problema de pesquisa
·  Apresentar uma sentença de abertura que chama a atenção para o tema.
·  Trazer números principalmente para causar impacto.
·  Identificar o problema de pesquisa.
Estudos que abordam o problema
·  Citar pesquisas sobre o tema.
·  Não é necessário dizer os resultados das pesquisas, mas o que elas fizeram.
·  Apresentar pesquisa sobre o tema (geral) e sobre o tema no segmento estudado (específico).
Deficiências na literatura
·  Deixar claro que o que existe, ainda que seja bom, não cobre o que sua pesquisa apresenta.
Importância do estudo e objetivos
·  Mostrar a importância do estudo diante da lacuna apresentada nas deficiências na literatura.
·  Apresentar os objetivos geral e específicos.


No plano teórico são apresentadas as questões da pesquisa ou hipóteses e a sustentação da pesquisa, que é a fundamentação teórica, propriamente dita.
Creswell (2010) mostra que as questões de pesquisa não são a mesma coisa que os objetivos da pesquisa, nem as hipóteses, pois essas são previsões que envolvem variáveis e estatísticas. Neste livro não sugiro nem exemplifico hipóteses na pesquisa, porque elas são, segundo Creswell (2010, p. 165) “estimativas numéricas dos valores da população baseadas em dados coletados de amostras”. E isso não confere com o exemplo que estou mostrando neste capítulo. Posso tratar do assunto em outro livro.
A questão central da pesquisa é algo que possa ser respondido pelos objetivos propostos na introdução.


Questão central da pesquisa

A questão central da pesquisa é uma pergunta aberta.
Usar verbos mais exploratórios (CRESWELL, 2010).
Usar expressões do tipo “Como”, “Por que”, “De que forma”.


Questão central da pesquisa
no hotel Marieta

2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Para atender ao objetivo geral desta pesquisa, a seguinte pergunta central foi elaborada.
Como podem ser formuladas estratégias de gestão de pessoas que se adaptam à gestão do hotel Marieta, considerando seu ambiente interno e externo?

Definidos os objetivos gerais e específicos, dada a questão central da pesquisa, é hora de partir para o referencial teórico.


Elaboração do referencial teórico

·       Indicar os tópicos ou temas que serão abordados para cumprimento dos objetivos da pesquisa e para responder à questão central.
·       Apresentar o referencial teórico para os temas, preferencialmente quando abordados especificamente para a área ou segmento estudado.

Não é possível aqui, neste livro, dar exemplo de como seria um referencial teórico para a pesquisa no hotel Marieta, por questões óbvias do tamanho que teria o material. Por outro lado, cabe lembrar que, seguindo a dica apresentada anteriormente sobre a elaboração do referencial teórico, caso seja dito que para cumprir os objetivos da pesquisa e responder à questão central o trabalho vai tratar das questões de turnover, absenteísmo, liderança, clima organizacional, comunicação, dentre outros, abra uma seção para cada tema e faça a abordagem teórica do mesmo.


Voltando à Figura 23, no plano técnico considero que estão a estratégia de pesquisa (o método), a técnica de coleta de dados, as análises e apresentação dos resultados. Esses dois últimos podem ser considerados um só ou formulados separadamente.
Etimologicamente a palavra método equivale a percurso ou caminho. Relatar o método de uma pesquisa é dizer como a pesquisa foi ou será realizada.
É possível que uma pesquisa seja realizada tomando como base mais de uma estratégia ou método, como afirmam Martins e Theóphilo (2009).
Entretanto, quero crer que uma pesquisa não pode ser tudo, como fazem alguns pesquisadores nos seus trabalhos acadêmicos. Tenho visto em trabalhos de graduação e de pós-graduação capítulos metodológicos com afirmações do tipo: “a presente pesquisa é documental porque analisamos alguns documentos, é também bibliográfica porque foram pesquisadores autores sobre o tema; ela é um diagnóstico porque foi realizada uma descrição do ambiente e análise do mesmo e por fim se trata de uma pesquisa do tipo survey porque foram tabulados dados e analisados estatisticamente”.
Não dá para dizer que uma pesquisa é tudo isso. Ainda que a pesquisa tenha optado por mais de uma estratégia, não dá para dizer que ela optou por todas, ou quase todas. É possível dar uma “cara”, digamos assim, para a pesquisa, mostrando qual é efetivamente a estratégia que deu a essência para a pesquisa.


Escolha da estratégica (método)
para a pesquisa

·       Definir qual a melhor estratégia de pesquisa: Pesquisa documental, bibliográfica, diagnóstico, pesquisa-ação, survey, estudo de caso dentre outras.
·       Caracterizar a estratégia escolhida com base na literatura, ou seja, apresentar autores que tratam do tipo de pesquisa definido para a pesquisa em questão.
·        Argumentar porque a estratégia escolhida é mais apropriada para o propósito da pesquisa em questão.

Não é propósito deste livro fazer um estudo exaustivo das estratégias de pesquisa. Por este motivo, apresento o Quadro 4 com o resumo das características de algumas delas.




Quadro 4 – Estratégias de pesquisa
Estratégia
Propósito e características
Documental
Tem como principal fonte de dados materiais que não foram editados, ou seja, fontes primárias como: cartas, memorandos, diários, correspondências,
Bibliográfica
Embora seja necessária a qualquer tipo de pesquisa, uma estratégia é eminentemente bibliográfica geralmente quando se quer apresentar e discutir conceitos como foco central da pesquisa.
As fontes bibliográficas são chamadas de secundárias, como livros, revistas, artigos, dicionários, enciclopédias.
Experimental
Busca, pelo rigor científico, identificar variáveis que se relacionam como causa e efeito. Muito usada em áreas como a Química e a Física.
Survey ou levantamento
São pesquisas que requerem coletas sistemáticas de dados que, geralmente, são tratados estatisticamente.
Exemplos de survey são os censos populacionais e pesquisas de opinião – como eleitorais e sobre preferências sobre produtos diversos.
Estudo de caso
O estudo de caso requer:
a)       A existência de um caso, ou seja, um problema para o qual se procura encontrar uma solução.
b)      Que o caso seja analisado exaustivamente.
Pesquisa-ação
É um tipo de pesquisa na qual os atores participam juntos com o pesquisador tanto da definição da pesquisa quanto dos seus encaminhamentos.
Diagnóstico
Visa explorar um determinado ambiente, geralmente para levantamento de problemas que podem ou não aparecer.
Geralmente é adequada ao pesquisador que pretende apresentar uma proposta de implantação de uma solução ou política para uma determinada organização estudada.
Proposição de planos e programas
Pesquisa que apresenta solução para problemas já diagnosticados previamente, como a criação de um sistema informatizado, um plano financeiro, dentre outros.
Fonte: Adaptado de Martins e Theóphilo (2009).

Antes de passar adiante, apresento um argumento sobre a pesquisa do tipo estudo de caso, com o objetivo de desmistificar algo que tenho visto de forma corrente em trabalhos acadêmicos.   Tem sido comum alguns orientadores dizerem para seus alunos que o trabalho é um estudo de caso, com base no simples fato de que a pesquisa tem um local para sua realização.
Na perspectiva dessas pessoas, o exemplo aqui apresentado da pesquisa no hotel Marieta seria um estudo de caso porque “vai estudar o hotel Marieta”. Existe aí uma confusão de local com caso. Ter um local, em minha opinião, não significa ter um caso. Se isso fosse suficiente para identificar o caso, praticamente todas as pesquisas seriam do tipo estudo de caso. Remetendo ao nosso problema de pesquisa, quero crer que um estudo de caso requer não apenas a identificação do local e do tema da pesquisa. A afirmação de que quero pesquisar gestão estratégica de pessoas no hotel Marieta não constitui um caso. Um estudo de caso, conforme aponto no Quadro 4, requer que exista um problema de pesquisa muito bem delimitado do qual se quer encontrar uma solução e que o problema seja estudado exaustivamente.
A pesquisa no hotel Marieta é, tipicamente, do tipo diagnóstico. Sobre diagnóstico, recomendo ainda a leitura do capítulo 3 de Thiollent (2009) pois, embora a obra seja sobre pesquisa-ação, esse capítulo trata das questões de diagnóstico. Ainda sobre esse autor, é uma excelente fonte para o estudo de pesquisa-ação (THIOLLENT, 2004, 2009).
Definida a estratégia de pesquisa, é hora de identificar a melhor técnica de coleta de dados para o problema. Não é necessário optar por apenas uma técnica, pois em boa parte das pesquisas são combinadas mais de uma, como entrevistas com questionários.
Como este não é um trabalho extenso sobre métodos e coletas, apresento aqui um quadro resumo (Quadro 5), com base nos textos de Vergara (2009), que considero uma boa obra sobre o tema. Sugiro que considere também, como outro bom livro do assunto o de Martins e Theóphilo (2009).

Quadro 5 – Técnicas de coleta de dados
QUESTIONÁRIO
Conceito
Propósitos e possibilidades
Limitações
É uma série de questões ordenadas, apresentadas por escrito, sem interação entre pesquisador e sujeitos da pesquisa.
·       Indicado quando se quer obter um grande número de respondentes.
·       Mais comum para pesquisas que requer tratamento quantitativo.
·       Úteis quando se quer fazer levantamentos (surveys).
·       Não é adequado quando é necessária uma participação do pesquisador com o grupo pesquisado.
·       Requer que o pesquisador tenha clareza sobre o que quer perguntar.

ENTREVISTA
Conceito
Propósitos e possibilidades
Limitações
É uma interação verbal entre pesquisador e pesquisado. É um diálogo com troca de significados.

·       Coletar informações de caráter qualitativo que dizem respeito a experiências de vida ou de tendências.
·       O entrevistador pode explicar o significado dos questionamentos.
·       O entrevistador pode utilizar estímulos do tipo: o que você quer dizer com "batata quente"? Martins e Theóphilo (2009) chamam esses estímulos de Laddering.
·       Entrevistado se deixar influenciar pelo entrevistador.
·       Requer tempo por parte de ambos: entrevistador e entrevistado.
OBSERVAÇÃO
Conceito
Propósitos e possibilidades
Limitações
É uma forma de registrar descrições ou explicações de eventos ocorridos no campo.
·       Fazer um exame minucioso na coleta de dados, que vai além de ver.
·       No caso da observação participante, o observador se torna parte do grupo a ser observado.
·       Pode servir de complemento da aplicação do questionário e também da entrevista.
·       Permite ao observador sentir as emoções, interesses, crenças e outros aspectos do grupo observado.


·       Dificuldade de aceitação do observador.
·       Presença do observador pode influenciar o comportamento do grupo.

Fonte: Adaptado de Vergara (2009).


Instrumentos de coleta nos apêndices

·       Sugiro apresentar nos apêndices os instrumentos de coletas de dados criados, como os questionários ou entrevistas, para que o leitor possa saber o que foi perguntado aos sujeitos da pesquisa.

Outros instrumentos resultantes da coleta de dados podem ser, por exemplo, documentos, materiais audiovisuais, entre outros. É importante relatar no trabalho acadêmico quais as fontes de coletas de dados, para que o leitor não pense que a informação “caiu do céu”.
Elaborados os instrumentos e coletados os dados, chega a hora de fazer análise dos dados, uma parte importante do plano técnico. Não há uma regra de como fazer, pois, embora seja óbvio afirmar, cada caso é um caso.


Teoria para um lado e análise dos dados para outro
Tenho encontrado, mesmo em trabalhos acadêmicos de pós-graduação lato sensu, análise dos dados coletados completamente desvinculada do referencial teórico utilizado.

 Não custa frisar, o referencial teórico deve servir de base para as discussões após a coleta de dados. A análise deve se dar à luz do referencial teórico utilizado, ainda que ele seja criticado quando estiver na contramão do que foi encontrado nos resultados da pesquisa. Mas esse “bate bola” entre resultados empíricos e referencial teórico é fundamental.
Não vejo também como apontar uma regra, no plano técnico, sobre a análise dos dados e apresentação dos resultados. Ambos podem ser realizados em um capítulo apenas ou podem ser vistos como dois processos distintos: a discussão dos dados e a apresentação dos resultados finais da pesquisa em outro, que não é ainda a conclusão. Esta, fica para o final, quando o redator pode apontar as descobertas que a pesquisa demonstrou, assim como deixar evidente algumas lacunas que possam ser preenchidas em pesquisas futuras.
Espero ter ajudado ao leitor compreender as normas da ABNT para elaboração de trabalhos acadêmicos e ter contribuído para o entendimento de como se constrói uma pesquisa.










ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023:2002 - informação e documentação – referências - elaboração.  Rio de Janeiro: ABNT, 2002a.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520:2002 -informação e documentação – citações em documentos – apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2002b.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022:2003 - Informação e documentação – Artigo em publicação periódica impressa – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2003a.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028:2003 – Informação e documentação – Resumo – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2003b.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6034:2004 – Informação e documentação – Índice – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14724:2011 – Informação e documentação – Trabalhos acadêmicos – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6024:2012 – Informação e documentação – Numeração progressiva das seções de um documento escrito – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2012a.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6027:2012 – Informação e documentação – Sumário – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2012b.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Participar-pesquisar. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 7-14.

BRUYNE, Paul de; HERMAN, Jacques; SCHOUTHEETE, Marc de. Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

CARMINATI, Celso João; MEKSENAS, Paulo. As ciências humanas e a produção social da pesquisa. In: BIANCHETTI, Lucídio; MEKSENAS, Paulo (Org.). A trama do conhecimento: teoria, método e escrita em ciência e pesquisa. Campinas, SP: Papirus, 2008. p. 135-150.

CRESWELL, John W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.

CRESWELL, John W. Investigação qualitativa e projeto de pesquisa: escolhendo entre cinco abordagens. 3. ed. Porto Alegre: Penso, 2014.

DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. 8. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.

DEMO, Pedro. Professor & Pesquisa 4 – vícios metodológicos. [2009]. Disponível em: . Acesso em: 15 jun. 2016.

DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico e educativo. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

FOUREZ, Gérard. A construção das ciências: introdução à filosofia e a ética da ciência. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Normas de apresentação tabular. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2016.

MARTINS, Gilberto de Andrade; THEÓPHILO, Carlos Renato. Metodologia de investigação científica para as ciências sociais aplicadas. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

MEKSENAS, Paulo. Pesquisa social e ação pedagógica: conceitos, métodos e práticas. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

MICHIELINI, Roziane do Amparo Araújo. Orientações para elaboração de trabalhos técnicos científicos conforme a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). 2. ed. Belo Horizonte: PUC Minas, 2016.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

SANDÍN ESTEBAN, Maria Paz. Pesquisa qualitativa em educação: fundamentos e tradições. Porto Alegre: AMGH, 2010.

SILVA, Eli Lopes da. Labirinto rizomático de experiências com mídias digitais. 2016. Tese (doutorado em Educação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

SILVA, Eli Lopes; VIAPIANA, Noeli. Manual de normalização de trabalhos acadêmicos do Senac/SC. Florianópolis: Senac/DR, 2013. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2016.

THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

THIOLLENT, Michel. Pesquisa-ação nas organizações. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.

VERGARA, Sylvia Constant. Métodos de coleta de dados no campo. São Paulo: Atlas, 2009.

  

sábado, 15 de julho de 2017

PLÁGIO EM ARTIGOS E TEXTOS ACADÊMICOS

Em agradecimento aos leitores que, neste mês, me deram a honra de atingir mais de 100 mil acessos no meu blog, reproduzo a seguir o capítulo 4 do meu livro: ELABORAÇÃO DE TRABALHOS ACADÊMICOS: NORMAS, DICAS E ERROS COMUNS, que pode ser encontrado no site estantevirtual.com.br

É uma obra que utilizo nas disciplinas de Técnicas de Pesquisa nos cursos de pós-graduação onde ministro aulas, editada pelo autor.

O capítulo retrata situações comuns de plágios encontrados em trabalhos acadêmicos. Considero uma leitura importante para alunos, orientadores, professores, pesquisadores e bibliotecários.

RESSALTO O QUE PENSO SOBRE O PLÁGIO: mais que uma traição ao autor que foi copiado, se constitui uma traição à confiança do leitor.


Retomo o tema do plágio, abordado no início do capítulo 2 quando apresentei o argumento que a paráfrase de grau zero é considerada plágio, concordando com Medeiros (2009).
Meu posicionamento em relação e essa questão é que, se a paráfrase de grau zero não fosse considerada pastiche (ou pasticho) pelo simples fato de que o autor foi citado, um indivíduo de qualquer área poderia escrever trabalhos sobre outras áreas sem muita leitura do tema.
A facilidade de copiar textos online através de comandos “Ctrl+C” e “Ctrl+V”, acompanhada da facilidade de substituir palavras nos editores de texto, podem ser mecanismos tentadores para a escrita de paráfrases de grau zero.
O que torna difícil a escrita de um texto acadêmico é talvez o fato que, mesmo conhecendo um tema com certa profundidade, ao escrevermos sobre ele temos sempre a impressão que é preciso mais leitura, pois não é fácil parafrasear os autores lidos.
Neste capítulo pretendo mostrar um pouco da nossa experiência na identificação de plágios em textos acadêmicos para propor algumas dicas de como identifica-los ou evita-los.
Apresentarei algumas situações em que o redator de trabalho acadêmico comete plágio. Opto por evidenciar aquelas na quais a minha experiência em correção de textos acadêmicos mostra que são mais rotineiras.
As situações apresentadas, numeradas sequencialmente, foram realmente vivenciadas em minha prática de correção de trabalhos acadêmicos. Entretanto, os exemplos mostrados em cada situação são hipotéticos, para não correr o risco de que a situação vivenciada seja encontrada pelo leitor em algum trabalho acadêmico publicado.
Utilizarei como originais principalmente os artigos da Navus – Revista de Gestão e Tecnologia, revista da qual sou editor científico, com os devidos créditos aos autores, para demonstrar como o texto do redator poderia fazer plágio dos originais.


Situação 1
O redator cita literalmente parte de um texto, mas copia o restante sem evidenciar que continua sendo uma cópia
Texto no original
Assim como as empresas privadas, as organizações públicas também precisam superar a visão de gestão unicamente funcional no sentido de quebrar as fronteiras organizacionais internas e, sempre que possível, eliminar tarefas desnecessárias, gargalos, retrabalho e duplicidade de atividades que não agregam valor ao cidadão.
FALCÃO JÚNIOR, Marcos Antônio Gomes; SANTOS, Raimundo Nonato Macedo dos. A gestão de processos na análise das atividades de seleções públicas simplificadas: estudo de caso em uma prefeitura. Navus, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 6-19, abr./jun. 2016.
Texto do redator
A gestão não pode ser unicamente funcional, mas estratégica, para que as empresas públicas ou privadas tenham sucesso.

Assim como as empresas privadas, as organizações públicas também precisam superar a visão de gestão unicamente funcional no sentido de quebrar as fronteiras organizacionais internas (FALCÃO JÚNIOR; SANTOS, 2016, p. 7).

 Sempre que possível, eliminar tarefas desnecessárias, gargalos, retrabalho e duplicidade de atividades que não agregam valor ao cidadão.

Veja o que o redator fez. Ele copiou um trecho do original, indicando corretamente a autoria e com a formatação da citação longa. Até aí tudo certo. Entretanto, ele continua copiando o texto do original como se fosse dele. O leitor está sendo enganando no último parágrafo porque pensa ler um texto do redator quando lê a continuação do original que foi citado.
  Na situação 2, muito comum em trabalhos acadêmicos, temos a evidência exata do que Medeiros (2009) chama de paráfrase de grau zero.

Situação 2
O redator cita o original, mas apenas troca alguns vocábulos na paráfrase
Texto no original
Entretanto, saber quais as funções que cada pessoa desempenha no interior da estrutura não tem muito sentido sem compreender como essas funções se relacionam umas com as outras. Portanto, para possibilitar uma real avaliação do desempenho das organizações, muitos teóricos organizacionais compreenderam que é preciso saber como as partes estão ligadas, atingindo seus processos.
FALCÃO JÚNIOR, Marcos Antônio Gomes; SANTOS, Raimundo Nonato Macedo dos. A gestão de processos na análise das atividades de seleções públicas simplificadas: estudo de caso em uma prefeitura. Navus, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 6-19, abr./jun. 2016.
Texto do redator
Segundo Falcão Júnior e Santos (2016), saber quais os papeis que cada pessoa exerce dentro da estrutura não tem muito sentido sem compreender como esses papeis se relacionam uns com os outros. Portanto, para viabilizar uma real avaliação do desempenho das empresas, muitos teóricos organizacionais compreenderam que é necessário saber como as partes estão ligadas, atingindo seus processos.

Essa situação 2 reforça uma visão que temos em relação à paráfrase de grau zero. Ela se constitui em um plágio porque, mais que uma traição ao autor que foi copiado, se constitui uma traição à confiança do leitor. Quem lê esse texto do redator, da forma como está, se não tiver acesso à fonte citada, terá a impressão que o redator conseguiu fazer uma interpretação do original quando, na verdade, ele apenas utilizou um dicionário de sinônimos para mascarar o “Ctrl+C” e “Ctrl+V”, ou seja, o copiar e colar.
Passaremos agora para uma situação de plágio de citação, ou seja, o redator faz as mesmas citações que o autor original, sem ter lido os mesmos textos que ele.
Situação 3

Plágio de citações
Texto no original

A partir da defesa desta concepção de universidade como instituição social, Chauí (2003) ressalta que a reforma neoliberal do Estado, que, ao considerar a educação como um serviço que pode ser privado ou privatizado, situa a universidade como uma organização. Esta visão organizacional da universidade produz o que Chauí (1999) chama de universidade operacional: uma organização voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos. Definida e estruturada por normas e padrões alheios ao conhecimento e à formação intelectual, que se consubstancia, por exemplo, no aumento de horas-aula, na avaliação quantitativa de publicações, na multiplicação de participação em comissões e de elaboração de relatórios que balizam a produtividade docente.
Esta visão organizacional da universidade desestabiliza seus objetivos sociais, pois, de acordo com Chauí (2003), a educação deve ser compreendida e materializada como um investimento social e político, devendo constituir um direito e não um privilégio de poucos.
Pesquisas apontam (BÚRIGO, 2009) que a universidade, em especial a universidade pública, como instituição social, é um espaço privilegiado para o processo da formação, pois esta é a sua essência. Não podemos conceber uma universidade distante do processo da formação, como uma prática fundamentalmente educativa e social.

BURIGO, Carla Cristina Dutra; JACOBSEN, Alessandra de Linhares; WIGGERS, Ludmila. Mestrado Profissional em Administração Universitária: desafios e perspectivas no processo da gestão universitária. Navus, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 68-78, abr./jun. 2016.


Texto do redator
Chauí (1999) nomeia como universidade operacional o tipo de organização que atende aos propósitos do neoliberalismo, pois é uma universidade que se preocupa com o quantitativo – publicações, horas-aula, participações em comissões – sem tomar como central a formação.
Para Chauí (2003) o investimento da universidade precisa ser no âmbito político e social, como direito dos cidadãos e não como privilégio de alguns.
Segundo Búrigo (2009) as pesquisas mostram a universidade, principalmente pública, como espaço privilegiado de formação.
Na lista de referências do redator:
BÚRIGO, Carla Cristina Dutra. A Formação de professores da educação básica nos sistemas educacionais da Argentina, do Brasil e do Uruguai. Porto Alegre, 2009. Relatório (Pós-doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

CHAUÍ, Marilena. A Universidade Operacional. Avaliação, Campinas, v. 4, n. 3, p. 3-8, set. 1999.

CHAUÍ, Marilena. A universidade sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, set./dez. 2003.

O tipo de plágio de citação apresentado na situação 3 é mais difícil de ser detectado. Isto porque o redator conseguiu parafrasear o texto fonte e inseriu nas referências os autores citados.
  Insistimos em apontar o plágio como uma traição ao leitor. Caso o leitor não tenha acesso ao texto original, sua leitura desse texto do redator lhe causa a impressão que ele leu os dois textos de Chauí (1999, 2003) e o texto de Búrigo (2009) para construir sua paráfrase quando, na verdade, ele aproveitou a construção do original para fazer a sua.
  Uma possível correção desse texto seria o uso do apud para evidenciar que o único texto lido realmente foi o de Burigo Jacobsen e Wiggers (2016). Entretanto, o problema para corrigir esse erro é que o texto apresentaria uma quantidade excessiva de apud.
Situação 4

Tentativa de corrigir o texto da situação 3, mas o erro é o excesso de apud
Novo texto do redator
Chauí (1999 apud BURIGO; JACOBSEN; WIGGERS, 2016) nomeia como universidade operacional o tipo de organização que atende aos propósitos do neoliberalismo, pois é uma universidade que se preocupa com o quantitativo – publicações, horas-aula, participações em comissões – sem tomar como central a formação.
Para Chauí (2003 apud BURIGO; JACOBSEN; WIGGERS, 2016) o investimento da universidade precisa ser no âmbito político e social, como direito dos cidadãos e não como privilégio de alguns.
Segundo Búrigo (2009 apud BURIGO; JACOBSEN; WIGGERS, 2016) as pesquisas mostram a universidade, principalmente pública, como espaço privilegiado de formação.

Na lista de referências do redator:
BURIGO, Carla Cristina Dutra; JACOBSEN, Alessandra de Linhares; WIGGERS, Ludmila. Mestrado Profissional em Administração Universitária: desafios e perspectivas no processo da gestão universitária. Navus, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 68-78, abr./jun. 2016.

  A situação 5, mais corriqueira, embora igualmente incorreta, é quando o redator copia uma citação do original, busca neste original a referência e insere no seu trabalho como se tivesse sido criada por ele.
  Nesse caso, para um leitor desatento, tem-se a impressão que o redator do trabalho acadêmico realmente leu o autor citado, tanto que ele consta de suas referências.


Situação 5
O redator copia a citação criada no original e a referência que ele citou
Texto no original
Para a fenomenologia, a consciência não opera no vazio, porém seu fundamento está centrado na busca pelos significados das experiências que chegam à consciência (noema) através da percepção (noesis) (BOAVA; MACEDO, 2011).
CONCEIÇÃO, Joelma Telesi Pacheco; CONCEIÇÃO, Márcio Magera; MARTINEWSKY, Alexandre. Turnover feminino nas cooperativas de resíduos sólidos: um estudo fenomenológico sobre as causas. Navus, Florianópolis, v. 5, n. 4, p. 113-125, out./dez. 2015.

Na lista de referências do original consta:
BOAVA, Diego Luíz Teixeira; MACEDO, Fernanda Maria Felício. Contribuição da fenomenologia para estudos organizacionais. [2011]. Disponível em: . Acesso em: 11 ago. 2014.
Texto do redator
Para a fenomenologia, a consciência não opera no vazio, porém seu fundamento está centrado na busca pelos significados das experiências que chegam à consciência (noema) através da percepção (noesis) (BOAVA; MACEDO, 2011).

Na lista de referências do redator:
BOAVA, Diego Luíz Teixeira; MACEDO, Fernanda Maria Felício. Contribuição da fenomenologia para estudos organizacionais. [2011]. Disponível em: . Acesso em: 11 ago. 2014.

  Conforme dissemos, o redator fez uma cópia literal da citação do original e copiou sua referência, como se ele (redator) tivesse criado a citação.







MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2009.


terça-feira, 28 de março de 2017

Mediação para uso das tecnologias em uma perspectiva filosófica

Talvez esse possa ser o título da conclusão da minha tese: mediação para uso das tecnologias em uma perspectiva filosófica.
Reproduzo a conclusão da tese:

Na perspectiva de que a Filosofia é a criação de conceitos e eles são instrumentos ou técnica, o labirinto rizomático de experiências é o conceito que desenvolvi nesta tese para usar da técnica de mediação para inserir os professores no universo das mídias digitais. A técnica, nesse caso, como arte, como saber fazer, mas não um saber de um técnico especializado que dita para os outros como fazer, e, sim, que constrói junto, mediando.
Nesse sentido, o mediador é com um flâneur, um viajante que cria seu percurso à medida que viaja. Essa foi nossa expectativa desde o início da pesquisa com os professores em Rio do Sul: viajar com eles nesse território virtual que é nosso labirinto rizomático de experiências, sem traçado pré-definido, mas construído nas experiências e o tempo todo de forma mediada.
O labirinto rizomático de experiências não é apenas um lugar para o flâneur, mas é o seu lugar. Diferentemente do homem da multidão, que se mistura, o flâneur que vagueia no labirinto cria sua marca, seu estilo, faz o seu traçado, constrói sua história, aqui, no caso, com o uso das mídias digitais.
É possível dizer que aí está uma diferença da inserção das mídias digitais em práticas pedagógicas dos professores pela mediação, que constituiu o labirinto rizomático de experiências, pois, dar um receituário de como utilizar mídias digitais pode ser fácil, mas o contrário, criar formas de usos pela mediação, não é.
Mediação foi a força motriz que permitiu a criação de percursos no labirinto rizomático, por isso ele é formado por conjunção, por “e...e...e...”, que são mediações do tipo S-h-O-h-R e S-h-O-h-R e S-h-O-h-R e S-h-O-h-R e..., indefinidamente. É uma rede de S-h-O-h-R.
Para trazer os professores para o projeto de mídias digitais, era preciso afetá-los. Se eu fosse um cantor, procuraria afetá-los com a música; Se eu fosse um dançarino, os afetaria com a dança; mas como sou um professor da área de Informática, procurei afetá-los com as mídias digitais. 
Oferecer cursos e oficinas para os professores, em projetos de formação continuada, é uma forma, ainda que insuficiente, de inserir as mídias digitais em práticas pedagógicas. Alguns pesquisadores fazem isso e depois pesquisam sobre as práticas pedagógicas resultantes da formação. Entretanto, mais do que pesquisar sobre os sujeitos, a ideia de construir um labirinto rizomático de experiências com os professores foi o aspecto mais relevante da pesquisa, na condição de professorpesquisador que se insere na história deles e, ao mesmo tempo, que faz a mediação da formação desses sujeitos, se forma também, ensinando e ao mesmo tempo aprendendo, juntos, no percurso do labirinto. A possibilidade de crer e inventar, na mediação de professorpesquisador com sujeitos da pesquisa, usando mídias digitais, é o que torna o labirinto deste trabalho algo que possa inspirar outras pesquisas do gênero.
A crença e a invenção, eis o que, na filosofia de Deleuze, nos permitiu fazer experiências com esses professores, com as mídias digitais, para a construção do labirinto rizomático de experiências, um território virtual, aberto às atualizações.
O labirinto rizomático de experiências é a própria experimentação. Ele é o lugar das experiências, do sujeito que crê e inventa. Essa é a forma que encontrei de, com os sujeitos da pesquisa, ultrapassar o dado. Mediando esses professores, tivemos a oportunidade, juntos, de inferir algo do dado que não está dado e construir nosso labirinto rizomático de experiências.
Desde a minha entrada no programa de pós-graduação em Educação da PUC Minas, em 2004, venho me ocupando com a ideia de usar as mídias digitais nas práticas pedagógicas.
O trabalho com o grupo CAPTE mostrou que a simples exposição dos professores às mídias digitais não garantia o seu uso. As oficinas podem ser consideradas simples exposição, pelo menos na perspectiva do que trabalho nesta pesquisa.
Em Rio do Sul, pude ver, em 2014, situação semelhante. As oficinas de webquest, criação de sites, entre outras, que ocorriam em paralelo ao projeto e-Culturas, obtiveram como resultado uma aula de Geografia que utilizou o Google Earth. Elas não foram, portanto, suficientes para criar um conjunto de experiências com as mídias digitais. Pelo menos não na perspectiva do que nesta tese chamamos de experiência.
Em 2015, quando passamos a trabalhar com os professores exclusivamente com o projeto de inserção das mídias digitais, a história foi bem diferente, fato que mostra que fazer o papel de mediador requer dedicação. Foram 46 reuniões realizadas entre março e dezembro de 2015. Como professorpesquisador e mediador das experiências, fiz 20 viagens de Florianópolis a Rio do Sul em 10 meses, o que significou, somente no trânsito, cerca de 180 horas. Soma-se a isso as horas em reuniões, em aulas com os professores, pesquisa de materiais, elaboração das minutas de reuniões, solução das demandas descritas na seção “Itens de ação” de cada minuta. Houve, ainda, os artigos para a Feira Regional de Matemática, para o colóquio em Belo Horizonte, ambos com a professora de Matemática; mais os dois artigos para o simpósio em Recife, um com o professor de Artes e outro com a professora de Língua Portuguesa.
Da parte dos professores, a pesquisa demandou o uso da hora-atividade deles para preparação das aulas, mais algumas horas de estudo e de elaboração das atividades, o que significou também muita dedicação para que as mídias pudessem ser utilizadas em aula com alinhamento aos conteúdos curriculares em cada disciplina.
Contabilizar tudo isso é importante para mostrar que a mediação, reafirmo, requer dedicação. É preciso estar muito disposto a entrar na história do outro e deixar que esse outro entre em nossa história também.
Em março de 2015, como professorpesquisador que, até então, levaria para os professores de Rio do Sul uma proposta de inserção de mídias digitais em suas práticas pedagógicas, eu tinha tão somente a noção de que viajaria duas vezes ao mês para aquela cidade, sem saber a demanda de tempo gasto para todas as demais atividades. Eu não tinha ainda a dimensão de tudo que nos passaria, nos aconteceria, nos afetaria[1] na criação e percurso desse labirinto rizomático de experiências. Porque nos afetou, trouxe tantos resultados positivos: o aprendizado do uso das mídias digitais pelos professores e pelos alunos; o aprendizado dos conteúdos curriculares com as mídias digitais; as experiências na relação com professores e alunos; os blogs criados para publicação das aulas e dos projetos dos alunos; os artigos para os eventos e a participação nos mesmos; a Primeira Mostra de Mídias Digitais em Rio do Sul; entre tantos outros.
Aprendi com essa experiência que não se trata exclusivamente, como referem alguns autores, da resistência dos professores em relação aos usos das mídias digitais em suas práticas pedagógicas. Também não é falta de recursos, como mostrou o depoimento da professora Klairy quando disse que os laboratórios estavam lá, mas não eram utilizados.
Esse trabalho mostrou que, para levar os professores a usar mídias digitais, pressupõe afetá-los, se inscrever em suas histórias, como mediador. É preciso construir com eles as experiências, porque ninguém é capaz passar sua experiência para o outro. Não se passa experiência. Ela se constitui fazendo. O sujeito precisa ser afetado para ter experiência. A capacidade de formação e transformação que ela permite é proporcional à capacidade que as pessoas têm de se afetarem na e pela experiência.
A alternativa encontrada para que os professores pudessem construir suas experiências foi fazer junto com eles, aprender junto, mas sempre levando algo para que houvesse, pelo menos, um ponto de partida.
Se eu fosse um estilista e criasse um vestido de noiva, talvez minha maior frustração seria não ver a noiva entrando na igreja com a obra de arte que criei. No caso do estilista, como qualquer artista, o deleite não está na obra em si, mas no contato que o público tem com a obra.
Quando a noiva entra no vestido, ela dá vida ao vestido. Suas curvas, seus movimentos, sua relação com o vestido, trariam para o estilista um novo jeito de ver o vestido. Isso possibilitaria a ele rever sua criação.
É possível que o labirinto rizomático não tenha o mesmo poder de sedução que o vestido da noiva e eu, longe de ser um artista, como é o estilista, sou um professorpesquisador, curioso para criar e mediar. Por outro lado, ele se distancia do vestido, na perspectiva de que não é um produto que pode ser entregue para alguém usar, mas uma forma de pensamento que, quando percorrido, permite pensar diferente e requer uma reelaboração.
O labirinto rizomático é um pensamento e, como tal, ele é filosófico. Como instrumento filosófico, ele atua na perspectiva do educere, que é mediadora, que pressupõe estender a mão para o outro.
O que faz o dispositivo labirinto rizomático funcionar não são os instrumentos técnicos somente, como computadores, mídias digitais ou qualquer outro, nem somente as pessoas, mas as relações que são estabelecidas entre elas e essas. Cuidar do outro requer tempo, dedicação, disposição e, sobretudo, respeito à alteridade.
Como pensar um sujeito que possa ter experiência sem a presença de um mediador? Para que algo nos toque e nos afete, é necessária a mediação, o convívio com os intercessores.
Há mais perguntas a fazer do que respostas a dar sobre como o sujeito se torna experimentador. Elejo pelos menos três questões: O que significa a mediação que permite ao sujeito fazer experiência? Qual a especificidade da mediação que permite construir a experiência e, com ela, a experimentação? O que seria uma Educação que pensa e age tendo essas questões como pano de fundo?
Sem a pretensão de dar as respostas, por considerar antideleuziana qualquer tentativa nesse sentido, há que se dar pistas que possam ajudar a pensar como caminhar na perspectiva de atender às demandas que essas perguntas geram.
A primeira pista é assumir a figura do narrador, pois este é quem se inscreve naquilo que diz. Sendo a experiência algo que nos toca, nos passa e nos acontece, e não simplesmente algo que se passa ou algo que acontece, somente a narrativa seria capaz de fazer do sujeito professor um sujeito da experiência.
Uma segunda pista é pensar a educação escolar como lugar para traição, para transgressão. Trair e transgredir, no sentido positivo que neste texto pudemos observar, são ações que permitem a transformação, pois, se não houver transformação, não é considerada ação na perspectiva que aqui foi apontada.
A terceira pista é pensar que toda ação na educação escolar pode ser considerada como um movimento de mediação. O mediador é o sujeito capaz de, na ação com este, fazer com que ele seja sujeito da experiência, que seja capaz de trair, transgredir, para que juntos, mediador e mediado, tenham condições de crer e inventar. Como o cuidado de si é também o cuidado com o outro, a crença e a invenção, que permitem aos sujeitos o ultrapassamento do dado, ou seja, da experimentação, só é possível mediante essas relações de intercessores um do outro.
O labirinto é também um espaço de cuidado de si, que implica no cuidado com o outro como espaço de criação e invenção. Para tal, é preciso ser afetado por aquilo que se vive.
Minha resposta à provocação inicial, se é preciso ter um profissional de Informática nas escolas para auxiliar os professores, é sim e não. Sim na medida em que é preciso um técnico para casos em que houver problemas com a máquina, como o mouse quebrado, uma internet que não esteja funcionando ou algo do gênero. Mas se for para mediar os professores, creio que não. O mediador pode estar ali, entre os próprios professores, seja ele docente ou outro profissional que já atua na escola.
Neste trabalho foi criado um labirinto rizomático de experiências para que os sujeitos da pesquisa, professorpesquisador, professores e alunos, pudessem traçar seus percursos de usos das mídias digitais no processo de ensino e aprendizagem, com conteúdo curricular do ensino fundamental.
A investigação das mediações se deu pela narrativa nos capítulos 6, 7 e 8. Como é uma tese para ser lida, ouvida e assistida, como dito no capítulo 1, ver as imagens, acessar os hiperlinks criados no texto, como no caso dos blogs e também dos 26 vídeos que têm duração total de 48 minutos, é fundamental para entender a narrativa criada para mostrar estes acontecimentos.
Narrar os acontecimentos engendrados pelo labirinto rizomático de experiências me fez pensar que o importante foi perceber como os acontecimentos afetaram a todos e não em que medida eles afetaram.
Por esse motivo, embora tenhamos utilizado a teoria da Experiência de Aprendizagem Mediada na criação dos percursos formados por S-h-O-h-R, em momento algum foi pensado em utilizar os três critérios de mediação previstos na teoria para verificar se foram contemplados. Qualquer proposta de medição de resultados seria antideleuziana.
Ainda assim, pode ser que futuras pesquisas venham a identificar, com esses sujeitos, como as mídias digitais passaram a fazer parte do cotidiano deles. Li muitas pesquisas que mostravam como os professores utilizam as mídias digitais, ou as tecnologias, como preferem caracterizar outras. Há casos em que os autores chegam a mencionar como os professores preparam suas aulas para os usos desses recursos. Essa tese apresentou como novidade o fato de o professorpesquisador se inscrever na história dos professores e participar com eles tanto da elaboração das aulas quanto da execução das mesmas, sempre mediando os processos. Não creio que seja algo absolutamente inédito, mas ousado.
O labirinto rizomático, como metáfora para visualizar os percursos construídos nesta pesquisa, serviu para mostrar que não se trata de oferecer a alguém, no caso os professores, um caminho para trilhar, mas consiste em criar o caminho. O docente já tem muita gente dizendo a ele o que fazer, é preciso que as pesquisas na Educação, sobretudo aquelas para uso das mídias digitais, sejam conduzidas de forma verdadeiramente mediadas.
Para finalizar, o que essa pesquisa mostrou é que pensar a Educação, nesse caso com uso das mídias digitais, não é algo tão simples e encantador quanto possa parecer, porque exige pesquisa, dedicação, tempo e muita mediação. Pode ser fácil dizer para as pessoas o que fazer, difícil é assumir o desafio de fazer com elas. Aí está a essência da mediação.






[1] Escrevo no plural porque incluo a mim e aos professores.