quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Práticas pedagógicas rizomáticas em tempos de informática, virtualizantes e de interações mútuas



Lévy (1993) classifica a história da humanidade, em termos de comunicação, em três tempos: primeiro a oralidade primária, em seguida a escrita e por último, o tempo da informática. Gallo (2008) lembra que esta classificação elaborada por Pierre Lévy remete a três tipos de saberes: enquanto a oralidade se baseia em um saber narrativo, a escrita apresenta um saber teórico que se baseia na interpretação e a informática traz um saber mais operacional que baseado em simulação que, neste caso, pode ser por modelos ou previsões.
Em relação ao saber baseado na escrita, “é marcado, assim, pelo viés teórico da interpretação da realidade, fundando uma noção de verdade que diz respeito à adequação da ideia à coisa mesma que a interpreta” (GALLO, 2008, p.72, grifo do autor).
Para interpretar a realidade, afirma Gallo (2008), o ser humano criou especializações que se deram por meio da disciplinarização. As disciplinas tornaram-se a forma de conhecer a realidade por parte. Para o autor, a metáfora disto é a arbórea, pois a árvore se ramifica em galhos e mais galhos, compondo as especializações ou disciplinas. É uma metáfora botânica, mas com uma concepção mecânica e que constitui uma hierarquização do saber.

 Embora seja uma metáfora botânica, o paradigma arborescente representa uma concepção mecânica do conhecimento e da realidade, reproduzindo a fragmentação cartesiana do saber, resultado das concepções científicas modernas. (GALLO, 2008, p.73, grifo do autor).

            Em tempos de informática, marcado pelo uso das tecnologias das mídias, “novas perspectivas começam a se apresentar, embora ainda turvadas pelas brumas da anterior” (GALLO, 2008, p.75). O caminho que se abre, nestes tempos, é o da multiplicidade, que escapa do esquema binário 1-múltiplo e permite pensar em múltiplo-1.

Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma. Um rizoma como haste subterrânea distingue-se absolutamente das raízes e radículas. Os bulbos, os tubérculos, são rizomas (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 21).

          O rizoma é um sistema aberto e, portanto, escapa do que é estabelecido à priori, pois a essência está no acontecimento, naquilo que se atualiza. A atualização é um acontecimento, uma manifestação do virtual.

O virtual é como uma situação subjetiva, uma configuração dinâmica de tendências, de forças, de finalidades e de coerções que uma atualização resolve. A atualização é um acontecimento, no sentido forte da palavra. [...] sua essência está na saída: ele existe. Enfim, manifestação de um acontecimento, o atual acontece, sua operação é a ocorrência. (LÉVY, 1996, p.137).

                Lévy (1996) deixa claro que, ao contrário do que pensa o senso comum, o virtual não é o oposto do real. O que se opõe ao virtual é o potencial. Enquanto o virtual possibilita a atualização, com a entrada do ser humano no circuito, o potencial está latente, esperando sua realização, pois é um leque de possíveis pré-estabelecidos. Se a essência do potencial está no input, a essência do virtual está no output.
                Tomando estes conceitos como base para pensar o universo escolar, o que temos muitas vezes é um modelo de escola que se baseia em sistemas arbóreos, disciplinados, nos quais os alunos têm pouca ou nenhuma possibilidade de participação ou intervenção, pois tudo já esta posto. Este tipo de escola opera no universo do potencial. Primo (1998, 2006) diz que este tipo de participação está no universo das interações reativas. São interações nas quais a pouca participação se ocupa apenas de realizar aquilo que já foi previamente definido. Outro tipo de interação, na perspectiva apontada por Primo (1998, 2006) é de interação mútua. Neste caso, o sujeito interfere no processo e participa ativamente da interação, possibilitando novas saídas (outputs) que não estão previamente programados.

Um diálogo de interação mútua não se dá de forma mecânica, pré-estabelecida. Cada mensagem recebida, de outro interagente ou do ambiente, é decodificada e interpretada, podendo então gerar uma nova codificação. Cada interpretação se dá pelo confronto da mensagem recebida com a complexidade cognitiva do interagente. (PRIMO, 1998, p.8).

                Enquanto Pierre Lévy nos mostra que potencial é aquilo que se realiza e virtual é aquilo que se atualiza, podemos compor com a ideia de interação reativa e interação mútua, apresentadas por Alex Primo. A primeira noção de interação (reativa) está no universo do potencial, já a segunda noção (mútua) está no universo do potencial.
                Voltando aos tempos do espírito, apresentados por Pierre Lévy, a oralidade primária, a escrita e a informática, podemos vislumbrar possibilidades pedagógicas, em tempos de uso de tecnologias na educação, na perspectiva de um pensamento rizomático, virtualizante e de interações mútuas.



REFERÊNCIAS

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1995.

GALLO, Silvio. Deleuze & a Educação. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.

LÉVY, Pierre. O que é virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.

PRIMO, Alex. Interação Mútua e Interação Reativa: uma proposta de
estudo. [1998]. Disponível em:
. Acesso em: 20 nov. 2012.

PRIMO, Alex. Avaliação em processos de educação problematizadora online. In:
SILVA, Marco; SANTOS, Edméa (orgs.). Avaliação da aprendizagem em
educação online. São Paulo: Edições Loyola, 2006. p.37-49.

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